O poeta curitibano Paulo Leminski tem um livro intitulado Distraídos Venceremos. Não sou crítico literário e nem especialista em poesia, mas sempre extraí deste título a seguinte lição. Em termos de cultura em geral - e cultura pop em particular - as maiores revoluções não foram pensadas em termos de revolução, elas foram espontâneas, ou seja, os revolucionários nem sabiam e nem queriam ser revolucionários, por acaso eles estavam fazendo a coisa certa, na hora certa e no lugar certo.
Esta é a melhor descrição que encontro para o momento que a Gang do Eletro está vivendo. A música brasileira precisa de pessoas como eles, e digo isso da maneira mais abrangente possível e imaginável, desde essa MPB indie lamurienta, autocomplacente e impotente até essa música pop inexistente, que ainda se mantém na base exploração geriátrica de medlhões do século passado.
Para a MPB o antído virá no novo disco da Gaby Amarantos - escutei uma prévia dele, sei do que falo, mas é assunto para outro texto. Já música pop, pop rock ou sei lá o quê, a Gang do Eletro é um alento. Um sopro de ar fresco, jovem ,paudurescente, divertido e repito, sem que fosse a intenção, transgressor.
Transgressor porque é punk de uma forma que nunca ninguém foi punk aqui no Brasil. Não me venham trazer à baila a cena paulista do início dos anos 80, aquilo lá era uma cópia de papel carbono da cena inglesa. Falo de uma emolução da filosofia punk para os padrões tropicais periféricos.
Falo de se apropriar do que há em termos de tecnologia barata, de aprender a usá-la na marra para criar um som novo, enérgico, pulsante e que faça um jovem pegar dois ônibus para gastar sua merreca da salário ou mesada num show lá na caixa prego.
Maderito, um ex ofice boy de jornal. Waldo Squash, um mecânico industrial já emputecido de se melar de graxa. William Will e Keila gentil, um jovem casal que já na adolescência teve que encarar a dura realidade da criarem um filho sendo cantores de uma, dentre mais de duas mil bandas em uma cidade pobre como Belém. Eles não sabiam que era quase impossível, eles não sabiam o que era do you self do punk. Foram lá e conseguiram.
E conseguiram a despeito de toda a lógica de mercado que até aqui sempre existiu. Nunca procuraram um empresário, uma loja ou gravadora. Nunca se preocuparam em gravar um disco ou até mesmo uma demo para mostrar pra alguém. Foram gravando suas músicas, enviando para as festas e para as turmas de amigos. Com passos de formiga e com muita vontade, construiram sua história.
Agora estão no sudeste. Agora estão sendo paparicados por meio mundo de gente descolada. Certeza que nesse meio encontrarão muita gente com sinceras boas intenções. Também encontrarão muito vampiro sendento pelo seu sangue bom. Estão enfim sendo descobertos. E isso é bom para todo mundo.
Claro, é bom para eles, ter seu trabalho reconhecido e colher os louros do sucesso é o mínimo de justiça que pode esperar neste mundo cão para tamanha carga de talento. Mas é muito mais bom para a música pop brasileira e para o público em geral, que já não aguenta mais ter crises de vômito e confusão mental ao ver as sucessivas listas de melhores do ano dos últimos tempos.
Não quero dizer que a Gang do Eletro seja a última bolacha do pacote. Tem mais gente aí na fila esperando sua vez para ser iluminada pelo holofotes. Mas calhou de eles serem os primeiros a chegar lá, simplesmente pelo fascínio que a expressão 'tecnobrega' e a origem amazônica causam na opinião pública cultural. Lá vem o eletro!
terça-feira, 28 de junho de 2011
Waldo Squash - A Entrevista
o apelido
waldo vem de josivaldo. o apelido waldo squash surgiu quando eu trabalhava no rádio, uns 6 anos atrás. na verdade foi uma brincadeira com um amigo, estávamos conversando sobre esportes e eu disse que gostava de jogar squash. e aí no outro no horário do programa dele, eu estava operando o áudio e ele me apresentou como dj waldo squash... e daí todos naquela rádio começaram a me chamar pelo mesmo nome.
o começo
beleza, vamos lá então pra ficha criminal. eu nasci em muaná, no rio atuá, mas não conheço a cidade não, nunca mais voltei. fica nas proximidades da ilha do marajó. tenho 31 anos. nasci em 1979. fui criado em ananindeua. passei uns 20 anos, aproximadamente, por lá. hoje em dia moro em barcarena, que é uma cidade próxima de belém. é uma cidade muito industrial, tem muita empresa metalúrgica. inclusive, minha outra profissão é mecânico industrial. mas meu último trabalho como mecânico já tem um ano. foi lá em porto velho, fiquei uns seis meses lá, mas senti falta do meu estúdio, dos meus equipamentos. aí vim me embora, larguei.
a música
música começou desde que nasci. meu pai já era apaixonado por música, tinha um sonzinho, uma aparelhagem, como todo mundo aqui tem. a cada passo que você dá aqui você encontra uma aparelhagem. ele montou uma aparelhagem pra ele. quando era pequeno lembro dele me colocar na beira do toca-discos. fui crescendo assim, no meio dos sons, conhecendo equipamentos e tudo mais. ouvindo música, ouvindo, ouvindo, ouvindo, e gostando de tocar, né? acho que já nasci dj. a parte de compasso musical aprendi já maior, mas já tinha isso comigo, mesmo sem saber o que era, porque já nasci ouvindo os compassos.
mas só fui mexer com música mesmo tem uns 5 anos, já próximo de conhecer o maderito. já trabalhava com produção. coloquei umas rádios no ar aqui no interior do pará e fazia produção de comerciais, de vinhetas, essas coisas assim, mas não fazia música. é que fui aprendendo a mexer nos programas e comecei a desenvolver minhas idéias. às vezes ouvia uma música e achava que dava pra fazer outra coisa que ficaria bem melhor, entendeu? então fui aplicando isso em alguns remixes a minha idéia, a minha interpretação das músicas. é o que faço hoje em dia.
três anos atrás conheci o maderito. já tinha uns remixes, mas não eram tão bons assim. de três anos pra cá fui estudando mais, fui conhecendo mais, e hoje a produção tá um pouco melhor. mas pode ficar bem melhor ainda. por causa disso continuo estudando. o estudo nunca para. pra sempre melhorar a qualidade do som no estilo que a gente trabalha. sempre procurando adicionar uma coisinha a mais.
e o eletromelody?
não é tão diferente porque a levada é a mesma da época do brega. o brega que se transformou em pop brega, tecnobrega, tecnomelody, e assim sucessivamente. só que a gente procura fazer o seguinte, fazer uma mistura do ritmo daqui com o geral que a gente ouve, com um pouco do que os baianos fazem, com percussão e tudo mais, um pouco da música pop internacional mesmo. a gente procura colocar um pouco de cada. a gente fez essa mistura e continua fazendo pra ver no que dá. eu não acho tão diferente assim o som. é um pouco mais cheio com outros tipos de instrumentos, mas a levada é a mesma. só é mais eletrônico.
o trabalho com maderito
geralmente a gente troca idéias pra fazer uma música. a maioria das nossas músicas são músicas de equipes... então, o que é que a gente pede quando uma equipe ou aparelhagem entra em contato com a gente, pedimos uma idéia do que eles querem e aí a gente faz o trabalho em cima disso. eu faço a base e o maderito escreve a letra, entendeu? mas nem sempre a base que faço é a que fica, porque às vezes ele escreve uma letra que fica melhor com outra base, e aí eu já faço a modificação. a gente trabalha dessa forma.
a música do pará
com o avanço da tecnologia e dos programas, os produtores daqui, os belenenses, os paraenses em geral, tiveram mais facilidade de colocar as suas idéias em prática. e a música paraense se transformou em mais vendável, pela qualidade. não só dentro do país, como fora também. acho que a nossa levada, a levada do pará, é contagiante, tem várias formas de dançar, pode ser agarrado, pode ser solto. mas falo isso e não sei se é o costume, porque a gente é acostumado a ouvir o que é daqui.
misturas
tento colocar nas minhas produções também coisas de fora do pará. já incluí samba no “tributo a carmen miranda” e tô pensando em fazer umas coisas com pagode. umas coisas da américa do sul como cumbia. são experiências que a gente está fazendo pra quando sair daqui poder mostrar um pouco da amazônia.
acho interessante fazer uma mistura com a música do pará porque é o que a gente mais gosta de fazer aqui. tem que ter os traços daqui se não a gente vai fugindo da raiz. o que a gente saber fazer melhor é que fazemos aqui.
waldo squash escuta...
gosto muito de ouvir eletrodance, tecnodance, da levada de drum’n’bass, é o tipo de músico que ouço, entendeu? muita coisa de fora no estilo mais pop. na verdade passo o dia todo ouvindo música, toda hora. quando não é no estúdio é no celular. não tem jeito não. eu escuto mais música que assisto televisão, que leio... não, leio muito por causa da internet... mas eu ouço muita música. tudo que estou fazendo é com música.
planos para o futuro
tenho planos pra frente sim, em relação ao trabalho. meu desejo é colocar minha idéias em prática, entendeu? algumas precisam de recursos financeiros pra funcionar, e isso a gente vai fazendo do jeito que dá. são idéias principalmente pras nossas apresentações. durmo pensando nisso. a gente quer rodar pra fora do país.
tem vários artistas que gostaria de trabalhar. alguns daqui do pará, que ainda não trabalhei, mas que são próximos e só não aconteceu a oportunidade. mas de fora... tenho vontade de trabalhar com alguns djs e produtores como o [paulista] alex hunt. ia ser legal trocar idéia com ele.
a estréia em disco da gang do eletro
minha expectativa sobre o disco é a mesma de qualquer artista. quero que ele faça sucesso. por isso a gente vai trabalhar com carinho, pensando no todo, pra que esse disco saia especial e que as pessoas gostem. porque a gente nunca faz música pra nós mesmos. a gente faz pra massa, pro povão que vai pra festa mesmo. e é através da experiência de ver essa galera curtindo que a gente vai trabalhar nesse disco, com o que a gente tem de melhor.
waldo vem de josivaldo. o apelido waldo squash surgiu quando eu trabalhava no rádio, uns 6 anos atrás. na verdade foi uma brincadeira com um amigo, estávamos conversando sobre esportes e eu disse que gostava de jogar squash. e aí no outro no horário do programa dele, eu estava operando o áudio e ele me apresentou como dj waldo squash... e daí todos naquela rádio começaram a me chamar pelo mesmo nome.
o começo
beleza, vamos lá então pra ficha criminal. eu nasci em muaná, no rio atuá, mas não conheço a cidade não, nunca mais voltei. fica nas proximidades da ilha do marajó. tenho 31 anos. nasci em 1979. fui criado em ananindeua. passei uns 20 anos, aproximadamente, por lá. hoje em dia moro em barcarena, que é uma cidade próxima de belém. é uma cidade muito industrial, tem muita empresa metalúrgica. inclusive, minha outra profissão é mecânico industrial. mas meu último trabalho como mecânico já tem um ano. foi lá em porto velho, fiquei uns seis meses lá, mas senti falta do meu estúdio, dos meus equipamentos. aí vim me embora, larguei.
a música
música começou desde que nasci. meu pai já era apaixonado por música, tinha um sonzinho, uma aparelhagem, como todo mundo aqui tem. a cada passo que você dá aqui você encontra uma aparelhagem. ele montou uma aparelhagem pra ele. quando era pequeno lembro dele me colocar na beira do toca-discos. fui crescendo assim, no meio dos sons, conhecendo equipamentos e tudo mais. ouvindo música, ouvindo, ouvindo, ouvindo, e gostando de tocar, né? acho que já nasci dj. a parte de compasso musical aprendi já maior, mas já tinha isso comigo, mesmo sem saber o que era, porque já nasci ouvindo os compassos.
mas só fui mexer com música mesmo tem uns 5 anos, já próximo de conhecer o maderito. já trabalhava com produção. coloquei umas rádios no ar aqui no interior do pará e fazia produção de comerciais, de vinhetas, essas coisas assim, mas não fazia música. é que fui aprendendo a mexer nos programas e comecei a desenvolver minhas idéias. às vezes ouvia uma música e achava que dava pra fazer outra coisa que ficaria bem melhor, entendeu? então fui aplicando isso em alguns remixes a minha idéia, a minha interpretação das músicas. é o que faço hoje em dia.
três anos atrás conheci o maderito. já tinha uns remixes, mas não eram tão bons assim. de três anos pra cá fui estudando mais, fui conhecendo mais, e hoje a produção tá um pouco melhor. mas pode ficar bem melhor ainda. por causa disso continuo estudando. o estudo nunca para. pra sempre melhorar a qualidade do som no estilo que a gente trabalha. sempre procurando adicionar uma coisinha a mais.
e o eletromelody?
não é tão diferente porque a levada é a mesma da época do brega. o brega que se transformou em pop brega, tecnobrega, tecnomelody, e assim sucessivamente. só que a gente procura fazer o seguinte, fazer uma mistura do ritmo daqui com o geral que a gente ouve, com um pouco do que os baianos fazem, com percussão e tudo mais, um pouco da música pop internacional mesmo. a gente procura colocar um pouco de cada. a gente fez essa mistura e continua fazendo pra ver no que dá. eu não acho tão diferente assim o som. é um pouco mais cheio com outros tipos de instrumentos, mas a levada é a mesma. só é mais eletrônico.
o trabalho com maderito
geralmente a gente troca idéias pra fazer uma música. a maioria das nossas músicas são músicas de equipes... então, o que é que a gente pede quando uma equipe ou aparelhagem entra em contato com a gente, pedimos uma idéia do que eles querem e aí a gente faz o trabalho em cima disso. eu faço a base e o maderito escreve a letra, entendeu? mas nem sempre a base que faço é a que fica, porque às vezes ele escreve uma letra que fica melhor com outra base, e aí eu já faço a modificação. a gente trabalha dessa forma.
a música do pará
com o avanço da tecnologia e dos programas, os produtores daqui, os belenenses, os paraenses em geral, tiveram mais facilidade de colocar as suas idéias em prática. e a música paraense se transformou em mais vendável, pela qualidade. não só dentro do país, como fora também. acho que a nossa levada, a levada do pará, é contagiante, tem várias formas de dançar, pode ser agarrado, pode ser solto. mas falo isso e não sei se é o costume, porque a gente é acostumado a ouvir o que é daqui.
misturas
tento colocar nas minhas produções também coisas de fora do pará. já incluí samba no “tributo a carmen miranda” e tô pensando em fazer umas coisas com pagode. umas coisas da américa do sul como cumbia. são experiências que a gente está fazendo pra quando sair daqui poder mostrar um pouco da amazônia.
acho interessante fazer uma mistura com a música do pará porque é o que a gente mais gosta de fazer aqui. tem que ter os traços daqui se não a gente vai fugindo da raiz. o que a gente saber fazer melhor é que fazemos aqui.
waldo squash escuta...
gosto muito de ouvir eletrodance, tecnodance, da levada de drum’n’bass, é o tipo de músico que ouço, entendeu? muita coisa de fora no estilo mais pop. na verdade passo o dia todo ouvindo música, toda hora. quando não é no estúdio é no celular. não tem jeito não. eu escuto mais música que assisto televisão, que leio... não, leio muito por causa da internet... mas eu ouço muita música. tudo que estou fazendo é com música.
planos para o futuro
tenho planos pra frente sim, em relação ao trabalho. meu desejo é colocar minha idéias em prática, entendeu? algumas precisam de recursos financeiros pra funcionar, e isso a gente vai fazendo do jeito que dá. são idéias principalmente pras nossas apresentações. durmo pensando nisso. a gente quer rodar pra fora do país.
tem vários artistas que gostaria de trabalhar. alguns daqui do pará, que ainda não trabalhei, mas que são próximos e só não aconteceu a oportunidade. mas de fora... tenho vontade de trabalhar com alguns djs e produtores como o [paulista] alex hunt. ia ser legal trocar idéia com ele.
a estréia em disco da gang do eletro
minha expectativa sobre o disco é a mesma de qualquer artista. quero que ele faça sucesso. por isso a gente vai trabalhar com carinho, pensando no todo, pra que esse disco saia especial e que as pessoas gostem. porque a gente nunca faz música pra nós mesmos. a gente faz pra massa, pro povão que vai pra festa mesmo. e é através da experiência de ver essa galera curtindo que a gente vai trabalhar nesse disco, com o que a gente tem de melhor.
Maderito - A Entrevista
o começo
tenho 28 anos. nasci e me criei no bairro de aclimação, aqui em belém do pará. [trabalho com música] desde 2000, quando meu tio me colocou pra ser roadie do açaí machine... eu sou sobrinho de tonny brasil, entendeu? era o surgimento do tecnomelody, do tecnobrega, aquela onda todinha. aí ele criou a banda bundas, que era pra ser uma cover do mamonas [assassinas], e a gente foi fazer um show lá no acará. foi lá que o tonny disse que ia fazer uma banda e queria que eu fosse um dos principais. eu quero que você seja um personagem. porque a banda bundas tinha um teatro e chamava a galera pra dançar. daí que surgiu o maderito.
o apelido
o tonny criou o maderito do nada. ele falava que eu tinha que chamar as garotas pra dançar no palco comigo e naquela época eu era mais magro, aí ficou o maderito. e é assim que todo mundo me conhece. [dias depois, no messenger, waldo squash comentou sobre o apelido de maderito: “rsrsr... é... mais agora ja está mais forte, tomou remédio pra vermes e está se alimentando melhor... rsrs]
composições próprias e parcerias
já vinha fazendo minhas composições tinha tempo. desde quando tinha uns 15 anos. vinham rimas na minha cabeça, direto, e versos e frases, aí eu criava uma coisa. mas nunca imaginei criar um ritmo chamado eletromelody e a galera adaptar aquilo como se fosse um hino nacional. é o que equipes falam aqui em belém. então é isso, desde os 15 que faço rimas, faço músicas, tecno, melody, eletro, direto... eu me acostumei a fazer letras desde o tempo do pop brega, do brega mesmo. tempo de roberto villar, nelsinho rodrigues, do brega de raiz do pará mesmo! mas eu não tenho ideia de onde surgiu isso, tanta coisa, tantas letras na minha cabeça como surgem até hoje. eu sinceramente não sei, não sei [ri]... não sei de onde vem tanta imaginação, tanta coisa na minha vida. só deus que sabe.
comecei a fazer as minhas coisas em 2002. foi quando a banda bundas teve uma pequena... pequena não, teve uma discussão entre os donos, o meu tio tonny brasil era um deles, e ficaram sem se falar. foi quando a banda bundas acabou que decidi que iria realizar o meu sonho. foi aí que comecei a criar tecnobrega. primeiro com o dj miller, depois com o dj betinho izabelense. também gravei algumas músicas que fizeram sucesso com o dj alex, da banda vip, e com o furacão sonoro. com o betinho izabelense foi que gravei uma música que fala: “fazemos a festa que você merece / agora joga a mão pra cima e faz um s”. essa música foi uma febre aqui no pará. depois, em 2007, conheci o joe benassi. quem me apresentou a ele foi o dj rafael teletubies, com quem também gravei uns tecnobregas. pouco depois conheci o waldo squash, e nós estamos juntos até hoje, na luta com a gang do eletro, entendeu? tipo assim, tenho um vínculo direto com a moçada. todos os djs me respeitam, tanto os velha guarda quanto os atuais. já mandei umas quatro letras pra banda medley, fora outras bandas. e sempre correndo atrás de inovar, de estudar várias rimas e gírias. sempre correndo atrás de tudo, de tudo, de tudo.
eu trabalhei com o joe [benassi] em 2007 e a gente montou a banda eletromelody. mas aí teve um desentendimento entre eu e ele e eu saí fora. vou falar de um ditado aqui... eu tô vendo que aquela plantação ali não vai me dar arroz, não vai me dar feijão, não vai me dar comida, não vai me dar dinheiro pra poder comprar um trator e colher alguma coisa boa dali, eu prefiro tacar fogo naquela porra e vender o terreno. sabendo que aquela praga não vai ter mais jeito... prefiro partir pra outro lugar. foi isso que aconteceu. não deu certo entre nós dois e eu saí fora. nessa época, o waldo trabalhava numa empresa aqui e eu conheci ele assim, do nada. a gente começou a bater um papo e falei de fazer uma parada juntos. ele disse que ainda não sabia mexer direito [nos equipamentos], e eu falei ‘bora que a gente vai ver no que vai dar. e hoje o waldo squash é uma referência no pará. gosto de trabalhar com ele porque o waldo estuda várias coisas, sabe? coloca uns violinos, ou um cello, ou então um sax. só o filé.
sobre a gang do eletro e o futuro
a gang do eletro é muito diferente do que fazia antes. totalmente diferente. a gang do eletro está pronta pra competir com qualquer banda mundial de eletrodance, entendeu? o waldo, além de ser produtor, ele é locutor também e tem uma técnica muito fina pra voz. ele ajuda a gente a cantar. ele faz muito comercial pra holanda, pra fora, e a gente fala com esse pessoal pelo facebook, pelo twitter. já toquei um set da gang do eletro em londres e o pessoal pirou e ficava perguntando de onde vinha aquela música. e eu falei que era de belém do pará, do brasil. a galera não acredita que no norte tenha uma evolução tecnológica assim. é uma onda diferente.
não dá pra dizer o que vai ou o que não vai acontecer porque o futuro só a deus pertence. porque, olha só, meu sonho era ser jogador de futebol. era pra eu estar jogando uma hora dessas no paysandu, apesar de ser remista, só que essa história acabou quando eu quebrei meu braço. mas aí surgiu essa onda das músicas.
breve digressão
antigamente tinha dificuldade de fazer minhas letras pra gang do eletro. hoje em dia não. vem do nada, tipo assim... “dafne sampaio / chegou pra você / entrevistando o alucinado / pra galera estremecer”, uma onda assim [risos]... entendeu? gostou? é do nada! e dafne tem tudo a ver com uma aparelhagem do pará, sabia? aqui tem uma aparelhagem boa chamada daf som.
o acidente
tenho sete parafusos desse aqui no meu braço. e um jogo de platina. era remo e paysandu, decisão do primeiro turno. eu trabalhava no jornal o liberal. minha mãe disse... “meu filho, não vá pro campo não que hoje é final e tu vai só tu”... “não, mãe, vai eu e um amigo meu”... acabou que meu amigo não foi porque foi levar a mulher no hospital que tava grávida. fui pro mangueirão. chegando lá... o remo tinha que ganhar do paysandu de 1 a 0, e pro paysandu bastava um empate. o remo dando com bola na trava tudinho. terminou o jogo e o paysandu foi campeão, levantaram a taça, e aí a torcida do remo veio com tudo. eu vinha descendo a arquibancada, a rampa, quando veio aquele arrastão, muita gente atropelando e aí me empurraram e eu caí lá de cima do mangueirão. caiu eu e uma senhora. ela quebrou a bacia e eu o meu braço, que quebrou em quatro partes. o médico falou que não tinha mais jeito do meu braço ficar normal, mas veio outro e disse que tinha jeito sim, mas que tinha que pegar um jogo de platina em são paulo que custava r$ 2,7 mil [o resumo da sequência dessa história é que maderito estava em um consórcio para tirar a moto holda falcon, acabou resgatando o dinheiro e salvou o braço, recuperou todos os movimentos].
maderito escuta...
por incrível que pareça, as músicas que escuto em casa não são eletromelody, melody, funk, forró, nenhuma. eu curto muito baile da saudade. minha onda é flash brega. eu sou apaixonado por borba de paula, magno, roberto villar, wanderley andrade, tonny brasil, que é meu tio... direto... minha onda em casa é baile da saudade. não escuto outra coisa. merengue, cumbia, soca, casicó, siriá, entendeu? reggaeton. e lá em casa é direto cd do pop saudade, rubi saudade, daf saudade, que é um outro segmento da empresa, né? ah, porque ficar escutando latino, essas músicas de fora, lady gaga, beyonce... pra mim isso pode tá aí! choro! eu gosto de escutar o que é do pará, o que é nosso.
a evolução da música pop paraense
pro meu conceito mudaram três coisas. primeiro: as batidas são mais acelerados porque a galera dá mais valor. pela harmonia, melodia, tudinho geral. pelo instrumental. e as letras que hoje em dia tem umas lindas. por isso que falo pra todo mundo que nós paraenses temos a capacidade de criar uma música, uma letra linda maravilhosa. eu falo, gente, vamos parar de pegar música dos outros, forró ou funk, e transformar em melody, porque não vinga. desse jeito a gente nunca vai ser muita coisa. acho que mudou muita coisa, eu gostei.
do pará
nós somos ricos em música. temos artistas bons aqui e a nossa cultura é forte. eu considero o pará como um país, um país cheio de ritmos, entendeu? agradeço muito a deus por ter nascido no pará e ser paraense da nata. ter o sangue parauara. acho uma coisa bem legal, diferente mesmo.
tirando o chapéu
gaby amarantos, acho o trabalha dela filé mesmo. a banda os brothers tem umas sacadas boas no melody. marlon branco junto com david sampler, outro cara que tiro o chapéu. viviane batidão com betinho izabelense. só filé. uma onda gostosa de curtir.
dou muito valor a ivete sangalo. ia ser um grande privilégio cantar com ela. e com o marcelo d2, ele de camisa do flamengo cantando a rima dele, e eu com a camisa do vasco cantando a minha do pará. e tem também um cara que sou louco pela música dele que é o josé augusto [e cantarola um trecho de “tudo deu em nada”].
os sonhos
tenho três sonhos na vida. quero construir uma casa e dar boas condições pra minha família, principalmente pra minha filha e minha mulher. quero conhecer são januário, o campo do vasco no rio de janeiro. e também tenho o sonho de conhecer o jô soares. os dois primeiros estão quase realizados, porque já mandei tirar o orçamento e daqui pra outubro vou terminar minha casa [seu aniversário é em 3 de outubro, perto do círio de nazaré], tenho um abraço gravado do carlos germano, que foi goleiro do vasco, e esse ano eu devo ir a são januário. então falta esse sonho de conhecer o jô soares e todo o sexteto dele.
tenho 28 anos. nasci e me criei no bairro de aclimação, aqui em belém do pará. [trabalho com música] desde 2000, quando meu tio me colocou pra ser roadie do açaí machine... eu sou sobrinho de tonny brasil, entendeu? era o surgimento do tecnomelody, do tecnobrega, aquela onda todinha. aí ele criou a banda bundas, que era pra ser uma cover do mamonas [assassinas], e a gente foi fazer um show lá no acará. foi lá que o tonny disse que ia fazer uma banda e queria que eu fosse um dos principais. eu quero que você seja um personagem. porque a banda bundas tinha um teatro e chamava a galera pra dançar. daí que surgiu o maderito.
o apelido
o tonny criou o maderito do nada. ele falava que eu tinha que chamar as garotas pra dançar no palco comigo e naquela época eu era mais magro, aí ficou o maderito. e é assim que todo mundo me conhece. [dias depois, no messenger, waldo squash comentou sobre o apelido de maderito: “rsrsr... é... mais agora ja está mais forte, tomou remédio pra vermes e está se alimentando melhor... rsrs]
composições próprias e parcerias
já vinha fazendo minhas composições tinha tempo. desde quando tinha uns 15 anos. vinham rimas na minha cabeça, direto, e versos e frases, aí eu criava uma coisa. mas nunca imaginei criar um ritmo chamado eletromelody e a galera adaptar aquilo como se fosse um hino nacional. é o que equipes falam aqui em belém. então é isso, desde os 15 que faço rimas, faço músicas, tecno, melody, eletro, direto... eu me acostumei a fazer letras desde o tempo do pop brega, do brega mesmo. tempo de roberto villar, nelsinho rodrigues, do brega de raiz do pará mesmo! mas eu não tenho ideia de onde surgiu isso, tanta coisa, tantas letras na minha cabeça como surgem até hoje. eu sinceramente não sei, não sei [ri]... não sei de onde vem tanta imaginação, tanta coisa na minha vida. só deus que sabe.
comecei a fazer as minhas coisas em 2002. foi quando a banda bundas teve uma pequena... pequena não, teve uma discussão entre os donos, o meu tio tonny brasil era um deles, e ficaram sem se falar. foi quando a banda bundas acabou que decidi que iria realizar o meu sonho. foi aí que comecei a criar tecnobrega. primeiro com o dj miller, depois com o dj betinho izabelense. também gravei algumas músicas que fizeram sucesso com o dj alex, da banda vip, e com o furacão sonoro. com o betinho izabelense foi que gravei uma música que fala: “fazemos a festa que você merece / agora joga a mão pra cima e faz um s”. essa música foi uma febre aqui no pará. depois, em 2007, conheci o joe benassi. quem me apresentou a ele foi o dj rafael teletubies, com quem também gravei uns tecnobregas. pouco depois conheci o waldo squash, e nós estamos juntos até hoje, na luta com a gang do eletro, entendeu? tipo assim, tenho um vínculo direto com a moçada. todos os djs me respeitam, tanto os velha guarda quanto os atuais. já mandei umas quatro letras pra banda medley, fora outras bandas. e sempre correndo atrás de inovar, de estudar várias rimas e gírias. sempre correndo atrás de tudo, de tudo, de tudo.
eu trabalhei com o joe [benassi] em 2007 e a gente montou a banda eletromelody. mas aí teve um desentendimento entre eu e ele e eu saí fora. vou falar de um ditado aqui... eu tô vendo que aquela plantação ali não vai me dar arroz, não vai me dar feijão, não vai me dar comida, não vai me dar dinheiro pra poder comprar um trator e colher alguma coisa boa dali, eu prefiro tacar fogo naquela porra e vender o terreno. sabendo que aquela praga não vai ter mais jeito... prefiro partir pra outro lugar. foi isso que aconteceu. não deu certo entre nós dois e eu saí fora. nessa época, o waldo trabalhava numa empresa aqui e eu conheci ele assim, do nada. a gente começou a bater um papo e falei de fazer uma parada juntos. ele disse que ainda não sabia mexer direito [nos equipamentos], e eu falei ‘bora que a gente vai ver no que vai dar. e hoje o waldo squash é uma referência no pará. gosto de trabalhar com ele porque o waldo estuda várias coisas, sabe? coloca uns violinos, ou um cello, ou então um sax. só o filé.
sobre a gang do eletro e o futuro
a gang do eletro é muito diferente do que fazia antes. totalmente diferente. a gang do eletro está pronta pra competir com qualquer banda mundial de eletrodance, entendeu? o waldo, além de ser produtor, ele é locutor também e tem uma técnica muito fina pra voz. ele ajuda a gente a cantar. ele faz muito comercial pra holanda, pra fora, e a gente fala com esse pessoal pelo facebook, pelo twitter. já toquei um set da gang do eletro em londres e o pessoal pirou e ficava perguntando de onde vinha aquela música. e eu falei que era de belém do pará, do brasil. a galera não acredita que no norte tenha uma evolução tecnológica assim. é uma onda diferente.
não dá pra dizer o que vai ou o que não vai acontecer porque o futuro só a deus pertence. porque, olha só, meu sonho era ser jogador de futebol. era pra eu estar jogando uma hora dessas no paysandu, apesar de ser remista, só que essa história acabou quando eu quebrei meu braço. mas aí surgiu essa onda das músicas.
breve digressão
antigamente tinha dificuldade de fazer minhas letras pra gang do eletro. hoje em dia não. vem do nada, tipo assim... “dafne sampaio / chegou pra você / entrevistando o alucinado / pra galera estremecer”, uma onda assim [risos]... entendeu? gostou? é do nada! e dafne tem tudo a ver com uma aparelhagem do pará, sabia? aqui tem uma aparelhagem boa chamada daf som.
o acidente
tenho sete parafusos desse aqui no meu braço. e um jogo de platina. era remo e paysandu, decisão do primeiro turno. eu trabalhava no jornal o liberal. minha mãe disse... “meu filho, não vá pro campo não que hoje é final e tu vai só tu”... “não, mãe, vai eu e um amigo meu”... acabou que meu amigo não foi porque foi levar a mulher no hospital que tava grávida. fui pro mangueirão. chegando lá... o remo tinha que ganhar do paysandu de 1 a 0, e pro paysandu bastava um empate. o remo dando com bola na trava tudinho. terminou o jogo e o paysandu foi campeão, levantaram a taça, e aí a torcida do remo veio com tudo. eu vinha descendo a arquibancada, a rampa, quando veio aquele arrastão, muita gente atropelando e aí me empurraram e eu caí lá de cima do mangueirão. caiu eu e uma senhora. ela quebrou a bacia e eu o meu braço, que quebrou em quatro partes. o médico falou que não tinha mais jeito do meu braço ficar normal, mas veio outro e disse que tinha jeito sim, mas que tinha que pegar um jogo de platina em são paulo que custava r$ 2,7 mil [o resumo da sequência dessa história é que maderito estava em um consórcio para tirar a moto holda falcon, acabou resgatando o dinheiro e salvou o braço, recuperou todos os movimentos].
maderito escuta...
por incrível que pareça, as músicas que escuto em casa não são eletromelody, melody, funk, forró, nenhuma. eu curto muito baile da saudade. minha onda é flash brega. eu sou apaixonado por borba de paula, magno, roberto villar, wanderley andrade, tonny brasil, que é meu tio... direto... minha onda em casa é baile da saudade. não escuto outra coisa. merengue, cumbia, soca, casicó, siriá, entendeu? reggaeton. e lá em casa é direto cd do pop saudade, rubi saudade, daf saudade, que é um outro segmento da empresa, né? ah, porque ficar escutando latino, essas músicas de fora, lady gaga, beyonce... pra mim isso pode tá aí! choro! eu gosto de escutar o que é do pará, o que é nosso.
a evolução da música pop paraense
pro meu conceito mudaram três coisas. primeiro: as batidas são mais acelerados porque a galera dá mais valor. pela harmonia, melodia, tudinho geral. pelo instrumental. e as letras que hoje em dia tem umas lindas. por isso que falo pra todo mundo que nós paraenses temos a capacidade de criar uma música, uma letra linda maravilhosa. eu falo, gente, vamos parar de pegar música dos outros, forró ou funk, e transformar em melody, porque não vinga. desse jeito a gente nunca vai ser muita coisa. acho que mudou muita coisa, eu gostei.
do pará
nós somos ricos em música. temos artistas bons aqui e a nossa cultura é forte. eu considero o pará como um país, um país cheio de ritmos, entendeu? agradeço muito a deus por ter nascido no pará e ser paraense da nata. ter o sangue parauara. acho uma coisa bem legal, diferente mesmo.
tirando o chapéu
gaby amarantos, acho o trabalha dela filé mesmo. a banda os brothers tem umas sacadas boas no melody. marlon branco junto com david sampler, outro cara que tiro o chapéu. viviane batidão com betinho izabelense. só filé. uma onda gostosa de curtir.
dou muito valor a ivete sangalo. ia ser um grande privilégio cantar com ela. e com o marcelo d2, ele de camisa do flamengo cantando a rima dele, e eu com a camisa do vasco cantando a minha do pará. e tem também um cara que sou louco pela música dele que é o josé augusto [e cantarola um trecho de “tudo deu em nada”].
os sonhos
tenho três sonhos na vida. quero construir uma casa e dar boas condições pra minha família, principalmente pra minha filha e minha mulher. quero conhecer são januário, o campo do vasco no rio de janeiro. e também tenho o sonho de conhecer o jô soares. os dois primeiros estão quase realizados, porque já mandei tirar o orçamento e daqui pra outubro vou terminar minha casa [seu aniversário é em 3 de outubro, perto do círio de nazaré], tenho um abraço gravado do carlos germano, que foi goleiro do vasco, e esse ano eu devo ir a são januário. então falta esse sonho de conhecer o jô soares e todo o sexteto dele.
as duas cabeças do eletromelody
O Pará já é, e qualquer um que acompanhe a música popular brasileira dos últimos tempos sabe disso. O ousado comércio alternativo (sim, a pirataria), a autonomia cultural, a intensa produtividade, e a proliferação exponencial de aparelhagens, equipes e DJs, além de uma criatividade enérgica aliada a velocidade da internet, fizeram o Estado entrar no foco de quem faz e consome música no Brasil e no resto do mundo. Esse processo vem acontecendo e se amplificando na última década, mas 2011 poderá ser lembrado como o ano do surgimento do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band ou do Samba Esquema Novo da música paraense, e da consequente coroação de umas das ramificações mais promissoras (criativa e comercialmente) do tecnobrega: o eletromelody. Mas vamos com calma que tal divisor de águas parauaras se chama Gang do Eletro, bicho de duas cabeças (Maderito e DJ Waldo Squash) que precisa ser apresentado.
“E aí? Só na manha?”. Do outro lado da webcam quem fala é Marcos Maderito, o Alucinado do Brasil, cria do bairro belenense de Cremação. Aos 28 anos, Maderito já pode ser considerado um veterano, afinal é sobrinho de uma lenda viva da música paraense, Tonny Brasil, e começou, ainda adolescente, na função de roadie de uma de suas mais famosas aparelhagens, a Açaí Machine (Tonny também é compositor de muitos dos sucessos da Banda Calypso). Não demorou muito e o tio o promoveu a um dos vocalistas da Banda Bundas, uma espécie de cover do Mamonas Assassinas, e foi nessa época, início dos anos 2000, que surgiu o apelido Maderito. E porque? Ele era muito magro, simples assim.
Mas a Bundas passou e Maderito ficou, já compondo tecnobregas aos milhares e em parcerias com os DJs Miller, Alex, Betinho Izabelense e Rafael Teletubies. “Não tenho ideia de onde surgiu tanta coisa, tantas letras na minha cabeça. E nunca imaginei ser reconhecido em todo lugar como sou hoje. Sinceramente não sei, não sei de onde vem tanta imaginação, tanta coisa na minha vida.” Essa torrente de criatividade tem muitos escoadouros e até hoje Maderito faz muita música sob encomenda, principalmente para aparelhagens e equipes (que são os fã-clubes das aparelhagens), o que é muito frequente entre compositores e DJs paraenses. Músicas assim já possuem um canal de divulgação próprio, os shows e coletâneas de aparelhagens, e isso já é meio caminho para o intrincado sucesso pelos igarapés do Pará.
“Nós somos ricos em música. Temos artistas bons aqui e a nossa cultura é forte. Eu considero o Pará como um país, um país cheio de ritmos, entendeu?” E Maderito sabe o que está falando, pois faz e ouve de tudo (que é paraense), mas o coração tem seus mistérios e o dele já tem dono. “Curto muito Baile da Saudade. Minha onda é Flash Brega. Sou apaixonado por Borba de Paula, Magno, Roberto Villar, Wanderley Andrade, Nelsinho Rodrigues e Tonny Brasil, que é meu tio”. Resumindo: em casa, com sua mulher e sua filha de pouco mais de 1 ano, Maderito gosta mesmo é de ouvir os clássicos bregas das décadas de 1970 e 80, um cancioneiro que deve muito à guitarrada, ao merengue, a cumbia e a uma romântica Jovem Guarda.
Só que o tempo de hoje é outro e a hiperatividade de Maderito o levou a acelerar as batidas do tecnobrega, criando assim o eletromelody, uma mistura da música de festa paraense com o eletrodance europeu do início da década de 1990 (“as batidas são mais aceleradas porque a galera dá mais valor”, diz, na lata). As primeiras experiências aconteceram com os DJs David Sample e Joe Benassi e em 2008 veio seu primeiro sucesso, “Galera da Laje”, música que lhe deu o título de Rei do Eletromelody e que foi feita originalmente para uma equipe. Quem já viu ao vivo ou no documentário Brega S/A (2009), de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, sabe que “Galera da Laje” é pancadão eletrônico para qualquer pista de dança que se preze eclética e atual.
Quase ao mesmo tempo, um mecânico industrial nascido em Muaná, mas criado em Ananindeua, na Grande Belém, estourou ao produzir um outro eletromelody pioneiro, “Super Pop é Curtição”, composto para a célebre aparelhagem Super Pop. Seu nome, Josivaldo, ou melhor, Waldo Squash. Atualmente morando em Barcarena, o DJ é outra cria exemplar da terra. “Meu pai já era apaixonado por música e tinha uma aparelhagem, como todo mundo aqui tem. Quando era pequeno lembro dele me colocar na beira do toca-discos. Fui crescendo assim, no meio dos sons, conhecendo equipamentos. Acho que já nasci DJ”, disse após tomar o lugar de Maderito na entrevista por Skype.
Mais crescido, Waldo foi trabalhar com áudio em algumas rádios pelo interior do Estado, geralmente como produtor de comerciais e vinhetas, além de ocasionais locuções. “Fui aprendendo a mexer nos programas e comecei a desenvolver minhas idéias. Às vezes ouvia uma música e achava que dava pra fazer outra coisa que ficaria bem melhor”. Entre essas experiências surgiu “Super Pop é Curtição”, cujo sucesso chegou aos ouvidos de Maderito. Foi então que combinaram de se encontrar para uma carne assada em um restaurante próximo ao terminal de ônibus do São Braz. “No mesmo dia fizemos a base de duas músicas, uma de aparelhagem e outra de equipe”, confessou Waldo sobre aquele 21 de novembro de 2008.
Melhor combinação não podia acontecer. De um lado, o falante Maderito com seu talento para criar rimas freneticamente. Do outro, Waldo Squash e sua permanente curiosidade por sons de todos os cantos da internet. “A gente procura fazer o seguinte: uma mistura do ritmo daqui com o geral que a gente ouve, com um pouco do que os baianos fazem com percussão e um pouco da música pop internacional mesmo. Mas a levada é a mesma [do tecnobrega]. Só é mais eletrônico”, explica o DJ. Pois então, já em 2009 nasceu o primeiro hit da Gang, o “Eletromelody da Indiana”, com referências a novela Caminho das Índias, Osama Bin Laden, Saddan Hussein e o diabo a quatro.
“Tento colocar nas minhas produções também coisas de fora do Pará. Já incluí samba no ‘Tributo a Carmen Miranda’, reggaeton e umas coisas da América do Sul como a cumbia villera [da Argentina]. E tô pensando em fazer umas coisas com pagode”. Waldo concretiza nas bases o que Maderito costuma chamar – e o termo é recorrente em várias letras - de “onda desguiada”. Uma onda diferente, desviada, que parte do Pará e vai engolindo (musicalmente) outras partes do mundo até voltar.
É isso, a Gang do Eletro é uma pororoca de duas cabeças que em um par de anos gerou uma infinidade de trabalhos encomendados e muitas músicas, algumas absurdamente originais como “Panamericano”, “Arrazadora (Sanfona Mix)”, “Friquitona”, “Tecno Cumbia Colombiana” e o tributo a Carmen, tudo devidamente disponível gratuitamente para download em uma conta 4shared. “Gosto de trabalhar com o Waldo porque ele estuda várias coisas, sabe? Coloca uns violinos, ou um cello, ou então um sax. É só o filé. A Gang do Eletro é muito diferente do que fazia antes. Totalmente diferente, e acho que está pronta pra competir com qualquer banda mundial de eletrodance, entendeu?”, é Maderito quem fala, sempre muito sincero.
E como tudo no Pará é muito urgente, pelos menos em termos de música, os dois decidiram voltar ao estúdio para registrar, com mais e melhores equipamentos, o disco de estreia. Em parceria com o GreenLab, um dos braços da produtora audiovisual Greenvision, Maderito e Waldo Squash vão, quase simultaneamente, gravar o álbum (que deve sair ainda neste semestre), preparar o show que farão em São Paulo em abril, idealizar o espetáculo que colocarão na estrada e gravar o clipe de “Galera da Laje” e um DVD. Tudo isso pouco depois do DJ acabar de produzir as bases para o disco de Gaby Amarantos, que participará do clipe e, atualmente, é considerada a embaixatriz da música paraense. Gaby, aliás, é também uma espécie madrinha da Gang e os convidou para participar de seu primeiro DVD solo, gravado no final de fevereiro no bairro belenense de Jurunas.
Só que existe mais uma ambição neste projeto da dupla: eternizar, sintetizar e divulgar a cultura eletromelody para fora do Estado. “Nada, nada mesmo, é mais a cara da periferia de Belém que o eletromelody. Tu chega lá e já está tudo pronto”, garante Priscilla Brasil, sócia-fundadora da Greenvision, diretora de documentários, clipes e institucionais e, no caso da Gang, produtora executiva. “As pessoas tem uma forma específica de se vestir, de se comportar, de se comunicar (sim, eles usam símbolos pra se comunicar nas festas), de dançar... é um mundo bem maluco”. Um mundo desguiado, tal como Maderito, Waldo Squash e a Gang do Eletro.
p.s. 1: colocarei logo mais os extras dessas duas entrevistas (ficou bastante coisa de fora, tais como o nome de dois cantores que entraram na trupe para shows e que aparecem aí no video, keyla gentil e william). aliás, a gang do eletro vai estrear em são paulo agora no dia 2 de abril com apresentação no sesc pompéia.
p.s. 2: olha um videozin caseiro que fiz durante o show e do exato momento da participação de gaby amarantos.
“E aí? Só na manha?”. Do outro lado da webcam quem fala é Marcos Maderito, o Alucinado do Brasil, cria do bairro belenense de Cremação. Aos 28 anos, Maderito já pode ser considerado um veterano, afinal é sobrinho de uma lenda viva da música paraense, Tonny Brasil, e começou, ainda adolescente, na função de roadie de uma de suas mais famosas aparelhagens, a Açaí Machine (Tonny também é compositor de muitos dos sucessos da Banda Calypso). Não demorou muito e o tio o promoveu a um dos vocalistas da Banda Bundas, uma espécie de cover do Mamonas Assassinas, e foi nessa época, início dos anos 2000, que surgiu o apelido Maderito. E porque? Ele era muito magro, simples assim.
Mas a Bundas passou e Maderito ficou, já compondo tecnobregas aos milhares e em parcerias com os DJs Miller, Alex, Betinho Izabelense e Rafael Teletubies. “Não tenho ideia de onde surgiu tanta coisa, tantas letras na minha cabeça. E nunca imaginei ser reconhecido em todo lugar como sou hoje. Sinceramente não sei, não sei de onde vem tanta imaginação, tanta coisa na minha vida.” Essa torrente de criatividade tem muitos escoadouros e até hoje Maderito faz muita música sob encomenda, principalmente para aparelhagens e equipes (que são os fã-clubes das aparelhagens), o que é muito frequente entre compositores e DJs paraenses. Músicas assim já possuem um canal de divulgação próprio, os shows e coletâneas de aparelhagens, e isso já é meio caminho para o intrincado sucesso pelos igarapés do Pará.
“Nós somos ricos em música. Temos artistas bons aqui e a nossa cultura é forte. Eu considero o Pará como um país, um país cheio de ritmos, entendeu?” E Maderito sabe o que está falando, pois faz e ouve de tudo (que é paraense), mas o coração tem seus mistérios e o dele já tem dono. “Curto muito Baile da Saudade. Minha onda é Flash Brega. Sou apaixonado por Borba de Paula, Magno, Roberto Villar, Wanderley Andrade, Nelsinho Rodrigues e Tonny Brasil, que é meu tio”. Resumindo: em casa, com sua mulher e sua filha de pouco mais de 1 ano, Maderito gosta mesmo é de ouvir os clássicos bregas das décadas de 1970 e 80, um cancioneiro que deve muito à guitarrada, ao merengue, a cumbia e a uma romântica Jovem Guarda.
Só que o tempo de hoje é outro e a hiperatividade de Maderito o levou a acelerar as batidas do tecnobrega, criando assim o eletromelody, uma mistura da música de festa paraense com o eletrodance europeu do início da década de 1990 (“as batidas são mais aceleradas porque a galera dá mais valor”, diz, na lata). As primeiras experiências aconteceram com os DJs David Sample e Joe Benassi e em 2008 veio seu primeiro sucesso, “Galera da Laje”, música que lhe deu o título de Rei do Eletromelody e que foi feita originalmente para uma equipe. Quem já viu ao vivo ou no documentário Brega S/A (2009), de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, sabe que “Galera da Laje” é pancadão eletrônico para qualquer pista de dança que se preze eclética e atual.
Quase ao mesmo tempo, um mecânico industrial nascido em Muaná, mas criado em Ananindeua, na Grande Belém, estourou ao produzir um outro eletromelody pioneiro, “Super Pop é Curtição”, composto para a célebre aparelhagem Super Pop. Seu nome, Josivaldo, ou melhor, Waldo Squash. Atualmente morando em Barcarena, o DJ é outra cria exemplar da terra. “Meu pai já era apaixonado por música e tinha uma aparelhagem, como todo mundo aqui tem. Quando era pequeno lembro dele me colocar na beira do toca-discos. Fui crescendo assim, no meio dos sons, conhecendo equipamentos. Acho que já nasci DJ”, disse após tomar o lugar de Maderito na entrevista por Skype.
Mais crescido, Waldo foi trabalhar com áudio em algumas rádios pelo interior do Estado, geralmente como produtor de comerciais e vinhetas, além de ocasionais locuções. “Fui aprendendo a mexer nos programas e comecei a desenvolver minhas idéias. Às vezes ouvia uma música e achava que dava pra fazer outra coisa que ficaria bem melhor”. Entre essas experiências surgiu “Super Pop é Curtição”, cujo sucesso chegou aos ouvidos de Maderito. Foi então que combinaram de se encontrar para uma carne assada em um restaurante próximo ao terminal de ônibus do São Braz. “No mesmo dia fizemos a base de duas músicas, uma de aparelhagem e outra de equipe”, confessou Waldo sobre aquele 21 de novembro de 2008.
Melhor combinação não podia acontecer. De um lado, o falante Maderito com seu talento para criar rimas freneticamente. Do outro, Waldo Squash e sua permanente curiosidade por sons de todos os cantos da internet. “A gente procura fazer o seguinte: uma mistura do ritmo daqui com o geral que a gente ouve, com um pouco do que os baianos fazem com percussão e um pouco da música pop internacional mesmo. Mas a levada é a mesma [do tecnobrega]. Só é mais eletrônico”, explica o DJ. Pois então, já em 2009 nasceu o primeiro hit da Gang, o “Eletromelody da Indiana”, com referências a novela Caminho das Índias, Osama Bin Laden, Saddan Hussein e o diabo a quatro.
“Tento colocar nas minhas produções também coisas de fora do Pará. Já incluí samba no ‘Tributo a Carmen Miranda’, reggaeton e umas coisas da América do Sul como a cumbia villera [da Argentina]. E tô pensando em fazer umas coisas com pagode”. Waldo concretiza nas bases o que Maderito costuma chamar – e o termo é recorrente em várias letras - de “onda desguiada”. Uma onda diferente, desviada, que parte do Pará e vai engolindo (musicalmente) outras partes do mundo até voltar.
É isso, a Gang do Eletro é uma pororoca de duas cabeças que em um par de anos gerou uma infinidade de trabalhos encomendados e muitas músicas, algumas absurdamente originais como “Panamericano”, “Arrazadora (Sanfona Mix)”, “Friquitona”, “Tecno Cumbia Colombiana” e o tributo a Carmen, tudo devidamente disponível gratuitamente para download em uma conta 4shared. “Gosto de trabalhar com o Waldo porque ele estuda várias coisas, sabe? Coloca uns violinos, ou um cello, ou então um sax. É só o filé. A Gang do Eletro é muito diferente do que fazia antes. Totalmente diferente, e acho que está pronta pra competir com qualquer banda mundial de eletrodance, entendeu?”, é Maderito quem fala, sempre muito sincero.
E como tudo no Pará é muito urgente, pelos menos em termos de música, os dois decidiram voltar ao estúdio para registrar, com mais e melhores equipamentos, o disco de estreia. Em parceria com o GreenLab, um dos braços da produtora audiovisual Greenvision, Maderito e Waldo Squash vão, quase simultaneamente, gravar o álbum (que deve sair ainda neste semestre), preparar o show que farão em São Paulo em abril, idealizar o espetáculo que colocarão na estrada e gravar o clipe de “Galera da Laje” e um DVD. Tudo isso pouco depois do DJ acabar de produzir as bases para o disco de Gaby Amarantos, que participará do clipe e, atualmente, é considerada a embaixatriz da música paraense. Gaby, aliás, é também uma espécie madrinha da Gang e os convidou para participar de seu primeiro DVD solo, gravado no final de fevereiro no bairro belenense de Jurunas.
Só que existe mais uma ambição neste projeto da dupla: eternizar, sintetizar e divulgar a cultura eletromelody para fora do Estado. “Nada, nada mesmo, é mais a cara da periferia de Belém que o eletromelody. Tu chega lá e já está tudo pronto”, garante Priscilla Brasil, sócia-fundadora da Greenvision, diretora de documentários, clipes e institucionais e, no caso da Gang, produtora executiva. “As pessoas tem uma forma específica de se vestir, de se comportar, de se comunicar (sim, eles usam símbolos pra se comunicar nas festas), de dançar... é um mundo bem maluco”. Um mundo desguiado, tal como Maderito, Waldo Squash e a Gang do Eletro.
p.s. 1: colocarei logo mais os extras dessas duas entrevistas (ficou bastante coisa de fora, tais como o nome de dois cantores que entraram na trupe para shows e que aparecem aí no video, keyla gentil e william). aliás, a gang do eletro vai estrear em são paulo agora no dia 2 de abril com apresentação no sesc pompéia.
p.s. 2: olha um videozin caseiro que fiz durante o show e do exato momento da participação de gaby amarantos.
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